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Último Update: Sep 8th, 2005 - 10:58:19

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Brasil - Um país em crise
By Jehozadak Pereira
Sep 8, 2005, 10:32

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edição 39
Quando o Brasil se livrou de Fernando Collor de Mello e sua quadrilha de ladrões, imaginou que tão cedo ninguém teria a coragem de assaltar os cofres públicos. Ledo engano. Tiveram sim, e a prova está aí diante de todos – a maior crise política na história brasileira.
A corrupção no Brasil vem dos tempos do império, passando pela velha república e seguindo adiante com todas as suas mazelas até desembocar na Nova República de José Sarney e a farta e abundante distribuição de emissoras de televisão e rádio. Depois de tentar se eleger presidente da República por três vezes, o pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva finalmente levou o Partido dos Trabalhadores ao Palácio do Planalto, e o que prometia ser uma era dourada para a estrela vermelha do PT, transformou-se num pesadelo sem precedentes.
A crise petista começou quando Henrique Meirelles, então eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás, trocou o mandato estável para o qual fora eleito pela insegurança de ser o presidente do Banco Central. Meirelles, que fizera carreira como o primeiro executivo não americano a assumir a presidência do poderoso Bank of Boston, e por isto dono de prestígio e reconhecimento na comunidade financeira internacional; portanto frontalmente contrário a tudo o que o PT pregou a vida inteira, inclusive o calote da dívida externa. A expectativa da ala radical do partido era a de que o comando da política econômica fosse entregue a alguém alinhado com o pensamento de que a dívida não deveria ser paga. Com isto, a senadora Heloisa Helena, os deputados Babá e Luciana Genro – a parte mais visível e barulhenta – se insurgiram e foram devidamente expulsos do partido. O que marcou nesta época foi a declaração de Heloisa Helena, de que eles – o PT – haviam sonhado com aquele momento a vida toda, e para desespero deles, um dos setores mais importantes da nação estava nas mãos do FMI. Tudo isto, dito em meio a muitas lágrimas.
O governo Lula foi marcado pela maior quantidade de ministérios – 26, mais 11 secretárias – dos últimos tempos, e muitos deles ocupados por petistas ilustres como Olívio Dutra, Benedita da Silva, Humberto Costa, Jaques Wagner – candidatos derrotados nos seus estados e nomeados ministros como um prêmio de consolação; ou outros, que amigos do presidente tiveram status de ministros como Luiz Gushiken.
A Casa Civil – o mais importante ministério fora da área econônica foi entregue a José Dirceu, que se tornou o mais poderoso dos ministros. O presidente Lula que nunca foi afeito às funções executivas, optando por viajar pelo mundo e por isso delegou a Dirceu a tarefa de governar, o que fez dele uma espécie de primeiro-ministro, num regime presidencialista.
Como não tinha a maioria para aprovar os seus projetos – principalmente na área social – o PT se viu obrigado a buscar na oposição os parlamentares que comporiam a base governista. Todas as nomeações para os cargos de confiança ficaram sob a responsabilidade de José Dirceu, assim como as negociações com o Congresso Nacional.
Os cargos de confiança – cerca de 17.900 cargos, dos quais quase sete mil foram substituídos, sem contar os de segundo e terceiro escalão que foram ocupados na sua maioria por militantes do PT, nem sempre com a devida capacidade técnica para ocupá-los. Para alguns partidos que se tornaram aliados, o governo entregou companhias estatais como os Correios e o Instituto de Resseguros do Brasil. A idéia dos partidos era fazer dinheiro para as campanhas futuras, daí surgir no cenário nacional nomes como os de Waldomiro Diniz, Marcos Valério, Silvio Pereira, Delúbio Soares – veja no Box – Personagens da crise – entre outros.
Sendo alçados ao poder, os petistas mudaram todo o seu conceito de vida, apresentando sinais exteriores de riqueza, tal como a turma de Collor de Mello.
Se no passado esta turma do PT andava atrás de dinheiro e penava para ser recebida pelo empresariado brasileiro, com o poder as portas se escancararam – veja em Atualidades a matéria Futuro ou passado – onde está a consciência brasileira – e, deslumbrados entraram por elas.
As andanças de algumas figuras como Silvio Pereira pelos bastidores do poder e as suas mudanças de hábitos foram noticiadas na imprensa. Mônica Bergamo da Folha de São Paulo, foi uma que noticiou que Silvinho estava comprando suas roupas e sapatos na Daslu – uma das mais caras lojas no mundo; já Cláudio Humberto, publicou em 3 de maio de 2004 na sua coluna na internet a notinha: “Melhorou muito O poder fez bem a Silvio Pereira, buliçoso secretário-geral do PT. Amigos seus ficaram orgulhosos: os tempos de Fiat Uno estão definitivamente para trás. Chegou a era do Land Rover, o luxuoso carrão all road inglês”.
O primeiro arranhão da aura petista se deu com Waldomiro Diniz, gravado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira enquanto pedia propina para as campanhas de Rosinha Matheus e Benedita da Silva, e para si. Diniz, que era acessor direto de José Dirceu, foi demitido quando o vídeo veio a público, e apesar de todo esforço da oposição em instaurar uma CPI, o governo manobrou e não permitiu a sua abertura. Este episódio serviu para arranhar o ministro Dirceu, que se manteve firme no cargo.
A crise se instalou de vez no coração do governo em maio quando a Revista Veja publicou matéria mostrando Maurício Marinho, funcionário indicado pelo PTB que ocupava cargo de confiança nos Correios, pegando uma propina de R$ 3 mil, e falando como funcionava o esquema de corrupção na estatal. O vídeo foi disponiblizado na internet pela revista e posteriormente veiculado na televisão brasileira.
O deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, citado na conversa foi defendido pessoalmente pelo presidente Lula, que afirmou ter o parlamentar a sua total confiança. Só que o pior estava por vir, e veio pela boca de Roberto Jefferson, que na Comissão de Ética da Câmara detonou com José Dirceu e revelou ao Brasil aquilo que já se sabia nos bastidores – a existência do mensalão que era operado por Delúbio Soares e pelo empresário Marcos Valério. A partir daí o país parou e a cada dia novos ingredientes foram sendo acrescentados trazendo profunda desilusão ao povo brasileiro, que a cada dia se arrepende de ter votado no PT.
O Congresso Nacional promete fazer uma limpa geral, e como resultado a Comissão de Ética sugeriu a cassação de 18 parlamentares, o que parece ser muito pouco diante da dimensão da roubalheira a que o Brasil está sendo submetido. O que ninguém consegue explicar é de onde saiu o dinheiro que sustentava a corrupção dos deputados, e uma pergunta está para ser respondida – será que o Brasil vai deixar passar mais uma roubalheira? O presidente Lula tem escapado incólume de todas as acusações, e a sociedade brasileira se pergunta até quando. Por muito menos Fernando Collor de Mello foi cassado e banido da vida pública por oito anos.

Personagens da crise
José Dirceu
Ex-ministro-chefe da Casa Cívil, é apontado como o mentor intelectual do mensalão e foi o responsável pelas negociações do governo com os partidos que compõem a base aliada. Demitiu-se do cargo depois de ser acusado pelo deputado Roberto Jefferson. Teve a sua cassação recomendada pela Comissão de Ética.

Roberto Jefferson
Foi citado por Marinho na fita como seu superior no esquema de corrupção; depois foi envolvido em nova denúncia de irregularidade na máquina pública, desta vez no IRB. Para se defender das acusações denunciou o pagamento do mensalão aos deputados que ajudavam o governo na Câmara.

Valdemar Costa Neto
Presidente do PL, Costa Neto, costurou a aliança com o PT para a eleição presidencial de 2002, negociando a participação de José Alencar à vice-presidência. Em decorrência disto tornou-se um importante interlocutor do governo, com atuação influente no Congresso. Renunciou ao seu mandato para não ser cassado e se tornar inelegível.

Delúbio Soares
Ex-tesoureiro do PT foi denunciado por Jefferson, como o responsável por reunir o dinheiro do mensalão e distribuí-lo aos parlamentares dos partidos aliados. Foi acusado de desembarcar em Brasília com dinheiro vivo e fazer o pagamento do mensalão pessoalmente aos deputados.

Silvio Pereira
Ex-secretário geral do PT, é acusado por Jefferson de administrar junto com Delúbio o mensalão. Tem livre trânsito no Palácio do Planalto, apesar de não ocupar nenhuma função ou cargo no governo federal.

Marcos Valério
Marcos Valério é sócio das agências SMP&B Comunicação e a DNA Propaganda, que têm cinco contas do governo federal, e foi destas empresas que sacou o dinheiro para a distribuição aos líderes dos partidos aliados. Justificou a origem do dinheiro através de empréstimos às suas empresas. Fernanda Somaggio, sua ex-secretária afirmou que ele levava o dinheiro em malas para Brasília, para fazer os pagamentos.

Maurício Marinho
Era o chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material da ECT, quando foi flagrado numa fita aceitando propina de um empresário. Dizia representar o PTB na estatal e garantia ter relação estreita com Roberto Jefferson. A divulgação da gravação detonou a maior crise política do governo Lula.

Arthur Wascheck
Um dos proprietários da empresa Comam, que fornecia material para a área de informática dos Correios. Foi dele a idéia de gravar Marinho recebendo propina. Em depoimento à CPI dos Correios, disse que fez a gravação porque suspeitava que algo andava errado nas licitações realizadas por Marinho.



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